Tudo que eu pensava quando o relógio marcava duas e meia era que eu sairia daquela pequena cela. Eu passava quatro horas por dia da minha vida preso com mais 32 crianças. Nenhuma delas se tocava. Ou pelo menos não comentavam nada sobre, acredito que a maioria delas não se tocava mesmo. Dava pra perceber pelo jeito alegre que elas chegavam na escola. Talvez seus infernosfossem suas próprias casas. Talvez o inferno pra elas não existisse. Pelo menos não a noção de inferno. Eu já tinha o meu aos seis anos de idade, tentava pensar diferente e era inútil. Alguma coisa estava errada, eu simplesmente não funcionava.
Depois da aula vinha o Incrível Hulk. Tudo que eu precisava era de um saco grande de biscoitos de polvilho, que providenciava na bomboniere que ficava no caminho de casa. Fora da escola tudo parecia agradável, tudo que fosse o caminho de volta pra casa parecia camarada. Aqueles biscoitos que eu saboreava enquantodeixava a escola pra trás teriam um gosto terrível se fossem devorados no trajeto inverso. E tudo que eu tinha a fazer era sentar nosofá e esperar ansiosamente por David Banner na televisão.
O Anselmo Luís (Bac) é um chapa que eu conheço há mais de dez anos. Eu comecei admirar o brother pela qualidade dos livros que ele sempre tinha nas mãos. O chapa ralava o dia inteiro num escritório de arquitetura depois de rasgar a cidade inteira e nos fins de tarde parava na cantina do CCSP. Sempre tava lá tranquilamente, com pinta de mafioso lendo caras como Jack Kerouac e o velho Buka. Lia entre várias garrafas de cerveja, manjava tudo sobre literatura e era capaz de longas conversas sobre uma porrada de coisas que eu considero importantes.
Dom Bactone
Pelos corredores do Centro Cultural, um cara de sobretudo preto e coturnos andava com um olhar circunspecto. Um cara durão que muito me lembrava os detetives de literatura noir. Esse cara era o Mário Bortolotto, o grupo Cemitério de Automóveis tinha acabado de ancorar em São Paulo (meados de 96). Eram os marinheiros tomando conta do navio. Uma amiga tinha alguns ingressos pra assistir ao Medusa de Rayban e me convidou pra ver. O cara soturno e durão faria um dos uísques, agora eu não lembro se era o Jack ou o Johnnie. Porra, eu não ia muito com cara de teatro naqueles tempos, mas como o cara de sobretudo e coturno estaria na peça, a coisa já parecia bem mais legal. Assisti e tive a mesma sensação de quando via minhas bandas de rock n’roll ou lia meus autores prediletos. Era isso, o teatro poderia ser legal. Era eu que tinha ido nas peças erradas.
Em meados da década de noventa eu vi, também no CCSP uma banda chamada “A Casa Caiu”, uma banda que ainda não tinha CD, mas tocava na Brasil 2000. O vocalista dessa banda era um dos melhores frontman que eu já tinha sacado. Eu fui pro CCSP pra assistir o Cavalo a Vapor, a Casa seria a segunda banda. Mas por causa do Paulo de Tharso, o grande frontman, a Casa acabou dominando a parada e ninguém mais queria que o show acabasse. Tava ali a essência do Blues, puro feeling. Dali desci pro Bixiga satisfeito, desci a ladeira na companhia de todos os anjos.
Anos mais tarde eu encontro um cara, ele senta na minha mesa, pede umas cervejas e me apresenta um livro “O Dia de Santa Bárbara”. Me dá um exemplar. Eu tiro o Postal Mambembe da mochila e apresento meu primeiro livro de poesia. Ele lê um dos poemas e começa a cantar, ali, no maior improviso. Depois escala um músico amigo seu, ali no bar e decide que todos vão pra sua casa, o antológico apartamento no Edifício Louvre, onde somos recepcionados pelo pouco amistoso Félix. As melodias surgem sem muita dificuldade e o grande Paulinho de Tharso transforma alguns poemas em canções. Ele diz que a facilidade vem por causa dos poemas, mas eu discordo. O Paulinho é um gênio que transforma com facilidade um texto em música. Reconheço o sujeito pelo timbre de voz. “ Peraí, você não é o cara que cantava na Casa Caiu?”. Era o homem, um dos melhores frontman que eu já havia tido o prazer de conhecer. A banda já havia acabado, o CD oficial nunca saiu. Mas aquela havia sido uma das bandas mais fudidaças que passou pelos meus ouvidos.
Paulo "Picanha" de Tharso
Em 2006 um texto meu saiu na Revista Só. E o lançamento foi no Cidadão do Mundo. A última semana antes do lançamento havia sido um bocado cruel comigo. Fazia um puta sábado frio, chuviscado, eu tava de ressaca. Tinha pouca vontade de sair de casa. Mas tinha texto meu na Revista. Era a primeira revista de um brother muito gente boa. E eu não podia dar essa falha. Arrumei minhas tralhas e fui até São Caetano. Encontrei alguns amigos, conversei um bocado, e como é de costume, em determinada hora da noite me amuei num canto com meu drink na mão. Daí que passa uma garota com cara de inverno. Uma das garotas mais charmosas e lindas que eu já tinha visto. Não tenho lá muito costume de abordar uma dama assim do nada. Sempre achei inconveniente. Simplesmente não faz parte do meu procedimento como homem. Mas numa fração de segundos toda minha ética foi pro saco e eu fiz algum gracejo do tipo “Você é muito linda”. Não era nada original, mas era sincero. Falei sem ponderar nada. Ela soltou um sorriso e começamos a conversar um bocado. Era covardia, a garota além de ser linda, sabia um bocado de literatura e cinema. A conversa toda surgia sem que nenhum de nós forçássemos a barra. A garota era uma das simpatias mais naturais que eu já pude constatar. Não demorou muito pra que eu estivesse apaixonado pela Fabiana. Estou até hoje e essa dama é minha mulher.
... Porra. Vocês devem estar se perguntando. Por que o Carlaccio tá falando sobre o Bactéria, Marião, Paulo de Tharso e a Fabiana ? É simples. Ontem foi o lançamento do meu pocket “Última Ficha Na Jukebox” no Sebo do Bac. E sabe aqueles dias em que um cara é capaz de ficar feliz pra caralho ? Então, esse foi o dia. Aquele momento em que um cara saca que não está sozinho e pode contar com a presença dos brothers que admira, e esses brothers vão chegando por causa de outros brothers que a gente conheceu lá atrás e rasgamos a noite chutando tampinhas em bares suspeitos. Eu fiz muito disso com o Bac e com o Paulinho. Foram chapas que acompanharam um bocado de coisas legais e outro bocado de fracassos. Foi por causa do Bac e do Paulo que eu conheci caras durões como o Marião e o Danny Boy (Que trouxe o vilão lírico do MaickNucleaR que até pouco tempo atrás eu pensava ser uma invenção virtual do Cavana, mas felizmente o carinha é real e esbanja talento). Foi por causa das peças do Cemitério de Automóveis que eu conheci, durante noites sombrias, um cara tão bacana e talentoso quanto o Pierre, o grande e “enfant terrible” gaitista Flávio Vajman e a Diva Fernanda D`Umbra. Foi por causa da Fabi que me emprestou o incrível Orfanato Portátil que eu conheci o Marcelo Montenegro (primeiro seus poemas geniais e depois a pessoa gente finíssima que esse cara é). Foi por causa da Fabi também que eu tive o prazer de conhecer e ser brother de um dos caras que mais admiro, pelo texto e pela lucidez no fio da navalha, que é o Ademir Assunção (Mestre Pinduca).
Ademir Assunção
Daniel Cavana (Dannyboy) e MaicknucleaR
Fernanda D´Umbra
Marcelo Montenegro
Edinho e Pierre Masato
Esses caras estavam lá, lendo seus textos e fazendo Blues no Lançamento da Ficha. Caras como o Edinho mandando ver no feeling da sua guitarra, fazem valer a vida de um cara. Esses caras fazem com que eu continue.
Amanhã eu lanço meu pocket“ A Última Ficha Na Jukebox”, no Sebo do Bac. O lançamento é apresentado pelo Desconcertos do grande Claudinei Vieira. Pra quem não sabe o Bactéria (Dom Anselmo Luís) e o Claudinei organizam o Desconcertos de poesia no Satyros II e na Casa das Rosas.Apresentando escritores que batem forte até o último round. Sempre sem aquela pompa acadêmica que pode transformar uma leitura numa missa de sétimo dia. A parada ali é outra, são textos que sem perder o senso da boa literatura trazem o feeling do bom blues e do rock n´roll.
Então pro escritor que vos escreve é uma honra fazer um lançamento organizado por essa dupla incansável e ainda de quebra ter como convidados alguns dos escritores e músicos que mais admiro.
Eu ainda acredito que uma jukebox salva a trilha sonora de uma noite.
Saquei um troço hoje. Um tipo de relação que eu faço com as coisas sem me dar conta. Mas hoje me dei conta que toda vez que minha menina viaja, além de eu me pegar folheando seus vários álbuns de fotografia e além de sentir o cheiro das suas coisinhas. Eu também leio um trecho do On The Road escutando Nina Simone. O fato de ela estar do outro lado do país e mais perto do México me faz um bocado melancólico.
"E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa...." jack kerouac
Alguns Humanos São Um Bocado Hipócritas, Mas Todos Os Gatos São Sinceros
Foto: Antônio Carlaccio
Eu sempre gostei muito de gatos. Quando tinha uns quatro anos apareceu um gato vagabundo no quintal de casa, minha mãe começou alimentá-lo diariamente. O bicho foi pegando costume, já não saía mais do quintal. Era um dandy, dava pouca bola pra gente. Chegava, comia e arrumava um canto pra ficar. Eu tava afeiçoado ao bicho. Achava legal aquela elegância toda, aquela imponência. Enfim, o jeitão aristocrático dele. Que só chegava pra comer mesmo e descolar seu canto longe da barbárie, pra descansar em paz.
Na mesma época, uma garotinha que morava do lado de casa, promovia todo tipo de escândalo por causa do nosso mascote. Eu no início dos cinco anos de idade já sacava que aquilo era uma farsa que podia ameaçar a tranquilidade dos vagabundos.
Um ano depois das histerias da menina o bicho apareceu que nem uma pedra na garagem de casa. Eu só olhei e permeneci em silêncio. Minha irmã convocou todas as outras crianças da rua pruma espécie de velório. Eu não me sentia nada bem com aquele bando saciando uma curiosidade mórbida às custas do meu gato. Como se isso não bastasse, a garotinha histérica solta um comentário desse naipe: "Agora que ele morreu eu descobri que amava ele".