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hot-dogs não ladram
Apenas uma cerveja preta e eu estaria totalmente acordado.O bar mais próximo era habitado por dois fugitivos do Pinel e uma garrafa de vodka pela metade.Eles faziam questão que eu tomasse umas doses pra comemorar o fato de estarmos vivos.De vez em quando penso nessa coisa depois da quinta dose,eles possivelmente pensam depois da terceira.Eram seis horas da tarde e eu não queria comemorar coisa nenhuma.Tomei a cerveja preta e sai, talvez voltasse pro asfalto me sugar.A noite tava nonsense.Engoli hot-dogs de cinquenta centavos na Praça da República depois de abastecer minha alma com bom blues.Ouvi um papo sobre saltos ornamentais, saltos dados por pessoas sem a mínima intenção de comemorar o fato de estarem vivas. O cara da voz estragada pediu que não falasse sobre essas coisas num lugar habitado por suicidas.Lembrei que meu maior bem é uma kit alugada no décimo nono, lembrei também que hot-dogs são eternos e os néons brilham pros caras que ouvem blues e vestem jaquetas de couro.Agora eu estava pronto. O cara da voz estragada me convidou prum porre,eu só topei porque ele sabia cantar igual o Tom Waits. O papo sobre saltos ornamentais continuou e um cão sarnento seguiu até o bar. Eu tinha certeza que minha alma ficaria na privada,esse era o pacto.Às vezes a vida parece bem decente prum cara que não existe antes do pôr-do-sol.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 11h55
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BALADA PERDIDA
APRESENTAÇÃO
As palavras do autor nesta prosa são sua transgressão, seu rosto exposto à rua do delírio do amor perdido, sua ternura não permite silêncio algum.O autor conhece sua geração e a compromete com o barulho genuíno de cada bunker festivo destes mortos sem mitos slavos pelo facrasso. Ler esta estória é ceder ao ritual educado da leitura uma certa medida demoníaca, deixar a brincadeira amarga dos fantasmas azucrinar a miséria ridícula dos vivos, aceitar enfim a alegria livre dos que percorrem as ruas orgulhosos de seu despojamento, mestres estes da não vida, os que aceitam suas moedas, caro leitor, mas riem da sua hipocrisia.
O riso vence a morte.
Adriano Lima
Escrito por Ricardo Carlaccio às 01h40
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