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SABOTAGENS LÍRICAS EM BARES SUSPEITOS - Parte I
Não havia umidade alguma no ar. Sam Gopal na vitrola , uma banda antiga de meados dos anos sessenta, tinha até o Lemmy na pegada. Um bando de marvados tocando o terror na cena hippie florzinha. Um velho nostálgico pra cacete gritava pra que salvassem a terra; meu pulmão tava descalibrado. Meu coração pesado com tantas bugigangas. O cara mala que gritava era um hippie velho tentando um discurso panfletário, datado e chato. Eu tava outsider demais pra agüentar aquilo. Na verdade agüentava e até achava graça.
Um lance tinha quebrado no meio, uma kitinete cheirando calcinhas molhadas tinha ficado pra trás. Manipulei os prazeres alheios, transformei putas em santas. Durante as quatro noites que li o Sexus do Miller via um cadáver do meu lado, uma junkie assoando o nariz coberta por uma coroa de flores e meia dúzia de pessoas no seu enterro carregando apenas uma guria pra cripta. Nessas noites em que o velho escritor me fazia companhia eu sonhava com algumas putas em volta do bêbado que vos fala. Putas com joelhos tortos, espirrando no meio da madrugada. Não existe nada mais lírico do que uma puta gripada fazendo a madrugada numa noite de agosto. Todas no meu parque de diversões abandonado e a janela sempre aberta no último andar.
Tudo que eu precisava era de um porão quente, cínico e libertino. Um jazz doce sussurrando tudo que eu quisesse dizer pra francesinha existencialista que não precisava de mim, simplesmente me queria e dizia “Lucky me’ com uma voz incrivelmente sensual que só poderia ser descrita na genialidade de um Thomas Wolfe. Eu sacava revólveres imaginários imitando De Niro em Táxi Driver, fazia isso na frente do espelho como um psicopata trancado num asilo de carcamanos. Depois escutava My Funny Valentine e adormecia como uma criança deve fazer, bem guri que não está em parte alguma, enrolado no meio das cobertas num domingo ameaçador.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 21h32
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