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Tubaínas e Fliperamas
Esse trecho do Rumble Fish sempre bate na minha cabeça quando eu realmente abro o jogo. Vai ele aí:
Eu gostava de contar as coisas que me aconteciam. Tirava o medo, como se aquilo tudo fosse apenas um filme emocionante que eu tinha visto.
Rusty James
Escrito por Ricardo Carlaccio às 13h54
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Marlowe no Coldre
A garoa caia sem parar. E isso foi um convite precioso pra passar o dia inteiro trancado no quarto lendo O Longo Adeus do bom e velho Chandler. Entre um e outro lance solitário no tabuleiro de xadrez Philip Marlowe sacou do coldre um parágrafo genial que eu vou publicar aqui no meu blog:
Numa prisão um homem não têm personalidade. Ele é um problema menor a ser resolvido e algumas anotações no relatório. Ninguém se importa com quem gosta dele ou o odeia, como é sua aparência, o que ele fez com sua própria vida. Ninguém reage a ele ao não ser que ele cause problemas. Ninguém o maltrata. Tudo que pedem é que ele fique quieto, siga tranqüilo pra sua cela e permaneça quieto depois de entrar nela. Não existe nada com que lutar, nenhuma razão para ficar zangado. Os carcereiros são homens quietos, sem animosidade ou sadismo. Todas essas histórias que vocês lêem de homens gritando ou berrando, se atirando contra as grades, batendo com colheres nas barras de ferro, guardas correndo com porretes _ tudo isso é a penitenciária. Mas uma boa prisão é um dos lugares mais calmos do mundo. Pode-se caminhar por todo bloco das celas à noite e vislumbrar, através das barras, vultos enrolados em cobertor pardo, os cabelos de uma cabeça ou um par de olhos olhando para coisa nenhuma. Pode-se ouvir um ronco. Uma vez ou outra pode-se escutar um pesadelo. A vida na prisão está em suspensão, sem objetivo ou significado. Numa outra cela a gente pode ver um homem que não consegue dormir ou mesmo tenta dormir. Está sentado na ponta da sua cama sem fazer nada. Olha ou não para você. Você olha pra ele. Ele não diz nada e você não diz nada. Não existe nada para se dizer.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 17h35
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HOT-DOGS NÃO LADRAM
Apenas uma cerveja preta e eu estaria totalmente acordado.O bar mais próximo era habitado por dois fugitivos do Pinel e uma garrafa de vodka pela metade.Eles faziam questão que eu tomasse umas doses pra comemorar o fato de estarmos vivos.De vez em quando penso nessa coisa depois da quinta dose,eles possivelmente pensam depois da terceira.Eram seis horas da tarde e eu não queria comemorar coisa nenhuma.Tomei a cerveja preta e sai, talvez voltasse pro asfalto me sugar.A noite tava nonsense.Engoli hot-dogs de cinquenta centavos na Praça da República depois de abastecer minha alma com bom blues.Ouvi um papo sobre saltos ornamentais, saltos dados por pessoas sem a mínima intenção de comemorar o fato de estarem vivas. O cara da voz estragada pediu que não falasse sobre essas coisas num lugar habitado por suicidas.Lembrei que meu maior bem é uma kit alugada no décimo nono, lembrei também que hot-dogs são eternos e os néons brilham pros caras que ouvem blues e vestem jaquetas de couro.Agora eu estava pronto. O cara da voz estragada me convidou prum porre,eu só topei porque ele sabia cantar igual o Tom Waits. O papo sobre saltos ornamentais continuou e um cão sarnento seguiu até o bar. Eu tinha certeza que minha alma ficaria na privada,esse era o pacto.Às vezes a vida parece bem decente prum cara que não existe antes do pôr-do-sol.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 15h20
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Poesia Maléfica
Há uns dois anos atrás eu tava indo pro ao Juke Joint na companhia do Kim, que eu tinha acabado de conhecer. Era um coreano cheio de tatuagens e com pinta de mafioso. No meio do caminho ele me apresentou um cara chamado Maléfico, o sujeito exibia o tipo do sorriso que justificava sua alcunha.
Vão aí, os links e um texto do grande Maléfico.
Um Coldre Vazio
Todas as memórias sinalizadores luminosos que falharam mensagens não lançadas ao mar garrafas de uísque na prateleira da garagem
Todas as 7 vidas desperdiçadas tiros de festim para o alto bilhetes cheios de mentiras lotando gavetas da escrivaninha do quarto
Todas as lições esquecidas traços de giz machucando o quadro negro tarefas de escola cheias de correções boletins negativos no armário da cozinha
Todos os dias as lembranças fios de pensamentos levando ao nada dores e amores marcando a estrada um 38 descarregado no bolso do casaco
Pierre masato ( Maléfico)
Escrito por Ricardo Carlaccio às 15h03
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Punhos Cerrados
Eu tenho o hábito de fumar uns três cigarros seguidos antes de dormir, lá pelas quatro ou cinco da manhã. Se eu não faço isso simplesmente não durmo. E se durmo, tenho pesadelos terríveis. Fazer isso é quase como uma oração. Eu passei dos trinta, e as manias começam a aparecer aos poucos. Outro cara, também adquiriu seus hábitos. Provavelmente alguns a mais do que eu por causa de sua idade avançada. É um velho vagabundo de uns sessenta anos. Ele sempre passa diante de meus olhos na hora que eu tô matando a última chupeta do diabo. Ele passa, e na hora que depara com a minha presença ele para, encara, anda em círculos, fuça no lixo e depois para de novo e olha fixamente nos meus olhos, ainda que a uma certa distância que separa a rua da minha janela. É seu ritual diário, e nos encanamos mutuamente. Dou minha última tragada e deito, faço uma oração quebrada e fecho os olhos. Depois começo a imaginar a longa trajetória do vagabundo, pra onde ele vai. Se nesse lugar vai ter outros vagabundos como eu pra ele estranhar como dois cães que se esbarram e tiram suas diferenças. Se ele está averiguando as marcas de sangue da rua Vernon. Penso na mulher suicida do pianista, penso em Cassidy sendo engolido a seco por uma vida recheada de enxofre. Penso que o Goodis deve ter sido um grande cara que percebendo a merda toda à sua volta perdeu o medo e foi até o fim numa briga de bar. Eu sinto o cheiro de mofo e o desespero daqueles becos da Filadélfia. Mas de alguma maneira me sinto tranqüilo. Mesmo sacando que tudo está destruído e o quanto a vida é parecida com a rua Vernon pra maioria das pessoas. Me sinto tranqüilo porque alguns homens tem culhões pra irem até o fim, mesmo que esse fim seja uma lata de lixo cercada de ratos.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h37
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