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Escrito por Ricardo Carlaccio às 13h45
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Um Pequeno Ringue no Paraíso

 

 

Meu pai era um molecão empolgado. Sentia-se orgulhoso quando eu  era bem pivete e devorava um bom sanduíche de Calabresa ou um X-Tudo na Galeria do Rango na Vinte Quatro e Maio. Gostava que eu gritasse junto com ele até perder as cordas vocais quando o tricolor fazia um golaço. Me repreendia, mas guardava um bocado de orgulho nos olhos quando eu ganhava alguma briga de rua. Depois passava horas contando seus casos de desavenças do seu tempo de  garoto no bairro da Água  Funda. Era apelidado de Pituca, por causa da sua baixa estatura, mas destruía seus adversários como um gigante. Eu guardava detalhe por detalhe de suas estórias que faziam parte da melhor hora do dia. No fundo eu sabia que meu primeiro olho roxo tinha sido um dos melhores presentes que eu poderia ter dado pra ele. Ele  apresentava meu olho pros seus amigos, que eu guardo na minha recordação como se fossem os grandes canastrões do cinema.  Eles olhavam cínicos e sem a  mínima complacência pro meu olho roxo e diziam de alguma maneira que o caminho era aquele mesmo. Que a  amistosidade estava com o prazo expirado. Que eu tinha que ficar ligeiro, com os olhos atentos e os punhos cerrados. Quanto às garotas, aquelas que trabalhavam ao lado da oficina do meu pai, me olhavam com uma certa piedade maternal, e isso me irritava, tudo que eu queria era impressioná-las com meu hematoma. Mostrar a elas que eu tinha me tornado um homem valente, um moleque destemido que ganhava um olho roxo, que estourava meus punhos na fuça de outros garotos, que eu era como aqueles vilões da tv, que eu não passava de um gato arruaceiro, que eu seria capaz de protegê-las do perigo, que comigo ninguém podia. Eu era o pequeno Carlaccio e jamais levaria um desaforo pra casa...   Às vezes não havia oportunidade pruma boa briga nas tardes de sábado. Era quando eu e meu velho carcamano íamos ao cinema depois de comer uma feijoada, assistíamos o melhor da ação nas salas do centro.  Se não fôssemos prum cine de verdade ficávamos com algum  filme no Super Cine. Isso acontecia na década de oitenta, então boa  parte do que passava por ali eram filmes que meu pai tinha devorado no cinema quando era molecão. Aliás, nesse tempo ele tinha quarenta e cinco anos e ainda era um molecão empolgado. Daqueles filmes o que mais chapou minha cabeça foi O Campeão. Meu pai tinha assistido no cinema. Disse ter chorado bastante no final, e não diria o porque antes que o filme terminasse. Me falou que o filho do Campeão era genial, porque chamava seu pai de Campeão e eu  achei o Campeão genial porque  ele disse que se um homem não fosse capaz de tirar suas próprias calças era porque não era mais um homem. Eu carrego essa idéia comigo até hoje e sempre lembro dela em situações limítrofes. Assistir um filme desses com meu pai era uma cumplicidade valiosa. Admirávamos cada atitude dos dois. E em nossa fantasia  éramos como eles  andando como  vagabundos pelo mundo, insatisfeitos e glorificados. Guardando algum olho roxo na lembrança, algumas aventuras no bolso e grandes sanduíches regados de ovo e bacon no estômago. Eram as tardes de sábado empoleirados no balcão gorduroso de algum bar do centro que nos davam o combustível. Eram os gols do tricolor nas tardes de domingo dando alguma trégua. Alguma emoção nos cinemas do centro enquanto comíamos  amendoim doce como se fossem pérolas. Alguma coisa iria acontecer, não sabíamos o quê. Apenas olhávamos um no olho do outro depois de algum filme que nos tivesse emocionado o bastante e estava tudo acertado entre nós.

 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 20h27
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