NEAL CASSADY ROUBOU MEU MAVECO
   
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O sol está azul lá fora. Nesses dias, alguns caras gostam de correr no parque. Eu prefiro ficar por aqui, em silêncio.

 

Nunca gostei dos grandes eventos. Algumas bandas bacanas tocam por aqui e eu não vou. É lógico que os preços exorbitantes dos ingressos impediriam que eu fosse de qualquer maneira. Mas, mesmo que fosse mais barato. A grande quantidade de pessoas num só lugar me deixa numa situação desconfortável. Se eu estiver de passagem, tranqüilo. Eu até banco, mas ficar mais de meia hora num lugar lotado, não. Eu não banco mais. Acho que a última vez que  pisei num lugar desses, foi no Sarajevo. A cada passo alguém me pedia licença. E eu obedecia, é claro. As outras pessoas não têm culpa se eu funciono desse jeito. Afinal de contas, o mundo é delas, não meu. E nem faço questão que seja. Eu também não detesto as pessoas. O que acontece é que se eu ficar muito tempo ao lado delas, escutando o que têm a dize, começo ter engulhos. E isso também não tem nada a ver com eu me achar melhor ou pior que as outras pessoas.  Isso tem a ver com minha incompatibilidade em relação à maioria delas. Desde pequeno nunca fui um cara muito legal, nunca gostei muito de participar das coisas. Sempre detestei gincanas na escola. Quando rolavam excursões, geralmente eu aproveitava pra ficar em casa, ou fazer alguma outra coisa que me interessasse de fato. Algum troço que eu tivesse escolhido fazer.  No outro dia chegava na escola e todo mundo me olhava com um certo ar de desprezo. Como se eu tivesse feito uma grande desfeita. Mas não era nada disso. Só não tava a fim de congratular e pronto. Minha irmã jurava que eu tinha sérios problemas mentais, por causa da minha falta de sociabilidade. Ficava puta comigo. Lembro de uma vez, era uma excursão num parque. Não me lembro qual. O monitor bolou uma corrida, imediatamente todos começaram a correr. Eu não tinha motivos pra disparar. Fiquei ali, na minha, olhando uma garotinha de óculos. Uma princesa de cabelinhos negros. Não disparei. O diretor da minha escolinha que possuía uma fisionomia muito parecida com a do Hitler, me repreendeu. Minha irmã endossou. Mas não arredei pé. Não me senti nem um pouco fodão por causa disso. Fiquei muito magoado com a pressão toda.

O Hitler era o monitor de uma escolinha paga que paralelamente fazia um tipo de serviço filantrópico. Abrigando crianças abandonadas pelos pais. As que tinham bom comportamento, conquistavam o direito de estudar na mesma turma que a gente. Às vezes eu ficava sacando eles no outro pavilhão. Era mais ou menos assim que a coisa era dividida, em pavilhões.  Obviamente elas eram um bocado mais tristes que os garotos da minha turma. Eu me identificava com eles, mesmo de longe. Sacava alguma coisa errada por ali. Não sabia exatamente o que era, mas aquilo me aporrinhava. Eles jamais participavam das mesmas excursões que a gente. Não que eles não quisessem, como era meu caso. Mas a coisa era feita daquele jeito por pura exclusão.

Existia também a horinha boboca de artes, numa delas, tínhamos que passar cola por cima de uma laranja pintada e deixar que secasse pra ficar brilhante. Eu insisti até o último instante que não passaria a cola. Tava legal do jeito que eu tinha pintado. A porra da laranja era minha. Daí a professorinha disse: “Todos passaram cola sem reclamar, fizeram direitinho o que eu mandei, só você quer fazer diferente. Você é um garoto difícil heinh!”. E eu não me orgulhava disso, pelo contrário, me sentia mal pra cacete. Mas não conseguia de maneira alguma fazer de outra maneira. Na essência, hoje, sou o mesmo cara. Entendo os motivos da minha indiferença, continuo não me achando o fodão por causa disso e nem a pior das espécies. Entendo o porquê funciono desse jeito e pronto, não arredo pé. E isso me basta. Só que os assuntos não se resumem mais a participar ou não participar de gincanas, ou  passar cola ou não passar cola na laranja pintada na folha de sulfite. Eu sempre soube que os que abdicam pagam um preço. E ele é dividido em prestações. O boleto pode chegar a qualquer momento. E eu estou disposto a arcar com o que alguns chamam de prejuízo.



Escrito por Ricardo Carlaccio às 17h15
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AMANHÃ, A TERCEIRA EDIÇÃO



Escrito por Ricardo Carlaccio às 22h12
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TAPE

Na metade da década de noventa eu fazia esporadicamente operação de som pra algumas peças de teatro. Acabava ganhando uma porrada de convites pra ver tudo quanto era apresentação. Devo ter visto umas três delas. Eram terríveis. As que eu trabalhava eram piores ainda. Me davam engulhos. Alguns caras do elenco eram  legais. E isso fazia com que eu suportasse a coisa toda. O trampo não durou muito tempo, acabei desistindo. Não era nenhuma questão ideológica. Mas eu nunca gostei de trampar num troço que eu não acredito. Peguei um certo bode de teatro naquela época. Achava que era tudo daquele jeito. Infelizmente, a maioria das coisas são um bode mesmo. Ou é aquele besteirol todo, chapado de preconceitos, pra arrancar risos gratuitos de um monte de babacas. Ou é a  coisa cheia de conceitos forçados, pra parecer bacana pruma banca julgadora. Pouca coisa parece de verdade.

 Na metade da década de noventa eu assisti a peça "Medusa de Rayban" do Cemitério de Automóveis, o texto saltava do palco. Puro rock n'roll. Era diferente de quaqluer coisa que eu tivesse visto antes. Depois disso eu queria ver tudo quanto era peça que fosse feita por esses caras de Londrina. O diretor da maioria daqueles textos era também o autor da maioria deles. Um cara de aparência bronca que também não tinha o jeito afetado dos outros diretores de teatro. Não ostentava uma teoria cheia de milongas. E lembrava muito os escritores que eu mais chapava. Esse cara era o Mário Bortolotto. E agora estréia mais uma das inúmeras peças que tem a mão do homem. E se o homem tá dirigindo, já é um puta motivo pra eu ir ver.

Texto: Stephen Belber

Direção: Mário Bortolotto

Com: Pedro Guilherme, Marcelo Serlingardi e Carolina Fauquemont

Sexta e sábado às 21:30

Domingo às 20h até 29/06

Teatro Sérgio Cardoso- Sala Paschoal Magno

Ingressos: R$ 10 a R$ 20

 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 22h02
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Uma hora dessas eu fico frio

 

A torre da igreja me ameaça. Entro no terceiro maço de cigarros. A cabeça não pára. Nina Simone tenta me acalmar. Perco as estribeiras. É melhor eu ficar por aqui. Nesse momento eu posso ser um perigo pra sociedade. Agora sou eu que ameaço a torre da igreja e todas as carolas. Os lutadores de Jiu Jitsu me causam repugnância. Se alguém apostar em mim numa rinha vai sair ganhando. Meus cigarros acabaram e é a segunda garrafa de água que eu entorno. Olho pela janela e titubeio. Meus pulmões pedem mais um maço de cigarros e uma garrafa de água. Minha consciência pede que eu fique por aqui e não me meta em confusão. Olho pras latas de cerveja na geladeira. Se eu não tivesse que trabalhar e tivesse vinho ao invés de cerveja eu entraria nele. Botava um filme legal e ficaria tranqüilo. Mas eu tenho coisas a fazer. As ruas não estão me convidando, mas eu vou invadir o bem estar presente nelas. Espero que ninguém me olhe nos olhos. Vou andar cabisbaixo e evitar que alguém fique ferido gravemente.

Escrito por Ricardo Carlaccio às 16h32
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