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Pras Meninas do Arpoador

Durante toda noite, um gato vagabundo ficou espreitando minha janela

Agora os adventistas estão chegando pro culto

é o Deus deles

O meu é o gato vagabundo

é uma garrafa de vinho

Amanheci escutando Rock Estrela

Imaginando as garotas do Arpoador

Sacando que aquele sol do Rio de Janeiro está mais perto de Deus

e que o Cristo Redentor é só uma redundância.



Escrito por Ricardo Carlaccio às 08h17
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Rock Estrela

Enquanto a gente pensa

Que sabe de tudo

O mundo muda de cena

Em menos de um segundo

                    Léo Jaime

 


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Escrito por Ricardo Carlaccio às 06h38
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Mais Perto do México

Saquei um troço hoje. Um tipo de  relação que eu faço com as coisas sem me dar conta. Mas hoje me dei  conta que toda vez que minha menina viaja,  além de eu me pegar folheando seus vários álbuns de fotografia e além de sentir o cheiro das suas coisinhas. Eu também leio um trecho do On The Road escutando Nina Simone. O fato de ela estar do outro lado do país e mais perto do México me faz um bocado melancólico.

"E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a  qualquer pessoa...."   jack kerouac

 

 

 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 04h03
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Alguns Humanos São Um Bocado Hipócritas, Mas Todos Os Gatos São Sinceros

 

 Foto: Antônio Carlaccio

Eu sempre gostei muito de gatos. Quando tinha uns quatro anos apareceu um gato vagabundo no quintal de casa, minha mãe começou alimentá-lo diariamente. O bicho foi pegando costume, já não saía mais do quintal. Era um dandy, dava pouca bola pra gente. Chegava, comia e arrumava um canto pra ficar. Eu tava afeiçoado ao bicho. Achava legal aquela elegância toda, aquela imponência. Enfim, o jeitão aristocrático dele. Que só chegava pra comer mesmo e descolar seu canto longe da barbárie, pra descansar em paz.

Na mesma época, uma garotinha que morava do lado de casa, promovia todo tipo de escândalo por causa do nosso mascote. Eu no início dos cinco anos de idade já sacava que aquilo era uma farsa que podia ameaçar a tranquilidade dos vagabundos. 

Um ano depois das histerias da menina o bicho apareceu que nem uma pedra na garagem de casa. Eu só olhei e permeneci em silêncio. Minha irmã convocou todas as outras crianças da rua pruma espécie de velório. Eu não me sentia nada bem com aquele bando saciando uma curiosidade mórbida às custas do meu gato. Como se isso não bastasse, a garotinha histérica solta um comentário desse naipe: "Agora que ele morreu eu descobri que amava ele". 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 03h35
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Feedback de Deus

 

      Às vezes um cara entra numas de Don Juan de Marco. Mete perfume nos punhos, ajeita os cabelos tipo James Dean. Não fica nada de mais, mas dá aquele jeito na calça jeans surrada, dá um plá na gola da camisa e sai por aí, sem eira nem beira, fudidamente desolado depois de matar umas duas garrafas de vinho. Anda tranquilamente e triunfante, orgulhoso somente porque uma garota de calça suplex recém saída da academia deu aquele sorriso ligeiro enquanto o muralha do seu namorado estava distraído. É como se ela sacasse de blues e estivesse percebendo a trilha sonora na minha cabeça. Só isso, basta.

     Tava rolando Donwtown Train na vitrola e eu tinha acabado de desligar o play, mas os ladrões de joalheria me acompanhavam. Eu tava inspirado no Mr. Blue. Era uma saída, um bandido como o Mr. Blue era necessário na minha vida. Outras garotas olhavam, piscavam. As mais novatas cochichavam com as amiguinhas e olhavam sem pudor. Eu lembrava de Dean Moriarty roubando carros só pra levar as garotas pras montanhas na saída do colégio. Não existe nada mais sagrado do que um final de tarde prum desocupado. É a hora de planejar o que vai ser a noite que provavelmente não vai dar em nada, as coisas fluem e jamais voltam pra casa. Daí o negócio é encontrar os velhos amigos e tramar um troço junto deles. Parar diante de um balcão e fuzilar a primeira garota linda, dona daqueles olhos sinceros de quem está realmente sozinha no mundo. E eu me metendo em olhos de cafetão romântico, sem eira nem beira, desesperado e tranqüilo. Sem pressa pra sobreviver na beirada de um copo de cerveja no verão ou de um tinto seco no inverno. Ali parado num começo de noite, num dia desbaratinado, cheio de planos e nenhum que funcionará de fato. Uma noite como nos gibis do Frank Miller. Ali, na beira do balcão, talhando o globo com observações indecorosas sobre a vida. Um Trinity esperando o Bambino pra roubar cavalos na metrópole.  E ali, bem diante dos meus olhos aparece aquela musa perigosa. Aparece com cara de inverno, com os olhos chumbados e tropeça precisamente onde eu possa agarrá-la. Eu lhe ofereço um drink e falo durante horas sobre tudo que me ocorre, com medo do silêncio que só diante dela me parece constrangedor. Depois de longas doses, ela saca uma arma do coldre e eu fico mais a vontade pra falar sobre meus heróis.



Escrito por Ricardo Carlaccio às 22h14
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Eu já falei por aqui que esse é um dos poetas que eu mais gosto. Então vai mais um do cara.

 

Filme

 

Você pede para eu apertar o pause

E vai ao banheiro

Deixando ao meu lado

Seu cheiro quente

No travesseiro amassado.

Penso por um segundo

No texto que fiquei de escrever

Para uma revista de literatura.

“Se é possível conciliar experimentalismo formal

E lirismo na poesia”.

Ouço sua bunda

Desgrudar-se da tampa

Que bate seca

E levemente na privada.

A descarga, a torneira ligada,

Imagino uma grande seqüência.

– A preguiça tem algo de comovente nos dias úteis.

Você volta ao quarto dizendo

Tá me dando uma fome

Enquanto rimos da pose engraçada

Que o ator parou.

Antes de apertar o play

Chego a esboçar que algumas pessoas

São incapazes

De tirar a poesia do sério.

 

(Marcelo Montenegro)

 

 

 

(in Hemingway Hotel, a sair)     

 



 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 00h55
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